Desigualdade social: touro da B3 é alvo de novo protesto

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Em 2020, o 1% mais rico da população recebeu, em média, 34,9 vezes a renda da metade mais pobre. Enquanto a parcela mais abastada ganhou uma média de R$ 15.816 por mês, per capita, os mais vulneráveis receberam R$ 453 Foto: Reprodução redes sociais

Depois do protesto contra a fome que cerca de 20 milhões de brasileiros enfrentam, movimentos sociais fizeram intervenção tendo como alvo o Touro de Ouro instalado na frente da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3.

Desta vez, o ato foi pela tributação das grandes fortunas. A crítica, pelo segundo dia consecutivo, foi ao que representa a escultura instalada na frente da B3, no Centro de São Paulo, representando a força do mercado de capitais.

A escultura é uma referência à estátua do touro de bronze, localizado em Wall Street, em Nova York. De acordo com os manifestantes, "não há nada o que comemorar! Enquanto os bilionários especulam e celebram seus rendimentos, nós lutamos ..."

Concentração de renda

A lista dos brasileiros bilionários cresceu 44% durante a pandemia, deixando o país em sétimo lugar em concentração de super ricos do mundo. “Enquanto isso, vivemos uma tragédia humana com metade da população com fome”, de acordo com o auditor fiscal da Receita Federal Luís Fantacini, defensor da justiça fiscal como forma de redução do fosso de desigualdades no País.

Apesar da pandemia, a concentração de renda no Brasil em 2020 caiu ao menor patamar dos últimos seis anos, mas não é uma melhora para comemorar, já que a situação mudou pouco. No ano passado, o 1% mais rico da população recebeu, em média, 34,9 vezes a renda da metade mais pobre. Enquanto a parcela mais abastada ganhou uma média de R$ 15.816 por mês, per capita, os mais vulneráveis receberam R$ 453. Em 2019, a relação havia ficado em 40 vezes.

O ex-diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Jorge Abrahão, destaca que no último século, entre 1920 e 2020, o 1% sempre teve pelo menos 20% da renda. “A distribuição de renda está associada diretamente às perversidades da desregulamentação do trabalho e os baixos salários do mercado, e ao Estado, que nem sempre atua na perspectiva da justiça social que a gente gostaria”, registrou.

Para o economista, a desigualdade brasileira está associada à concentração de renda e de riqueza, à falta de acesso aos bens e serviços pelo baixo investimento público e, principalmente, pela estrutura tributária regressiva. “Ao invés dos tributos reduzirem a desigualdade, jogam pela ampliação dela”, resume Abrahão.

0s 10% mais pobres gastam 32% da renda na carga tributária, enquanto os 10% mais ricos dispendem 20%, consequência da regressividade da estrutura do imposto. Mais de 50% da receita de tributos provém de impostos sobre o consumo, justamente os itens mais consumidos pelos mais pobres.