Filme sobre Telma Saraiva conclui filmagens no Cariri

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O filme dá visibilidade ao vasto trabalho de uma mulher tão importante para a memória do Cariri cearense, reconhecida pelo uso primordial da técnica de fotopintura Foto: Rafael Vilarouca

O longa metragem “Todas as Vidas de Telma” volta a filmar no Cariri, captando as últimas imagens que revelam a biografia da fotógrafa e precursora da fotopintura no Nordeste, Telma Saraiva. 

O doc ficção foi interrompido em 2015, com a morte da artista, mas naquela ocasião foi possível ainda registrar depoimentos fundamentais para a obra, que retoma produção após seleção no edital de incentivo ao Audiovisual Cearense da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará/Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural Ceará, por meio do Fundo Estadual da Cultura, com  recursos provenientes da Lei Federal 14. 017/2020 – Aldir Blanc.

O projeto, na realidade, iniciou há mais de 10 anos, quando a diretora do filme, Adriana Botelho se debruçou sobre o tema em sua tese de doutorado em Artes Performativas da Imagem em Movimento, na Universidade de Lisboa, em Portugal. 

Depois disso, foi selecionado no laboratório de audiovisual do Porto Dragão em 2016 e, desde 2018, participa de editais para alavancar a sua produção. Atualmente, conta com produção executiva de Glícia Gadelha e realização pela Associação dos Voluntários para o Bem Comum - AVEBEM, instituição de Juazeiro do Norte. 

Memória

“Um dos objetivos do filme é dar visibilidade ao vasto trabalho de uma mulher tão importante para a memória do Cariri cearense, reconhecida na região pelo uso primordial da técnica de fotopintura, que dava cores às fotografias monocromáticas de sua época”, destaca a diretora. As filmagens atuais vêm complementar os registros documentais da época da morte da artista, lançando mão de uma personagem ficcional, a sobrinha-neta Ana, que vive em terras estrangeiras, mas retorna às origens da família para receber uma herança. Inspirada na neta Roberta, ela é o fio condutor da narrativa da história de Telma Saraiva.

“Ana nos media com seu drama através das conversas com os habitantes da cidade, os críticos de arte, os amigos, os parentes e as mulheres retratadas”, explica Adriana.  Entre os depoimentos, constam as últimas imagens públicas de quatro entrevistados que já faleceram, se tornando um arquivo histórico para a região. 

São eles: Padre Ágio, músico e educador; Madre Feitosa, educadora e professora de Telma; Abdon, um dos últimos fotopintores da tradição no Juazeiro do Norte; e a loja de Gino, onde Telma comprava parte de seus acessórios, que acompanhou toda a época da fotografia analógica no Cariri, e fechou um ano depois (2016) de sua morte.  

Após as filmagens, que terminam até o dia 5 de março, o filme entra em edição, com previsão de lançamento ainda para este ano.

Sobre Telma Saraiva

A arte da fotopintura no Brasil remonta a 1866. Atualmente, os principais artistas do gênero estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste. No Ceará, Telma Saraiva (1928- 2015) foi uma das primeiras a aplicar essa técnica, e a pioneira na utilização de referências do cinema para composição de suas fotopinturas. Por seu trabalho, constituiu-se como uma das matrizes formadoras das imagens tradicionais de retrato na fotografia modernista com influência no Nordeste.  

Telma aprendeu com o cinema a compor seus retratos, inspirada nos filmes clássicos e nas atrizes hollywoodianas. Tornou-se por mais de 60 anos de intenso trabalho, no Foto Saraiva, a fotógrafa especialista na região do Cariri, por glamourizar seus fotografados e a perdurar a juventude.  

Fotografou Luís Gonzaga, as misses do Crato Tênis Clube, Padre Ágio, Madre Feitosa, as normalistas, os políticos, as donas de casa, jovens de classe média, em seus ritos de debutantes, casamentos, formaturas, aniversários, ou seja, uma forma de ver a sociedade nordestina do século XX.  As imagens ocupam as salas de visitas das residências e instituições públicas de toda a região, tornando-se uma galeria privada mas também coletiva de seu trabalho artístico.  

Pela relevância do seu legado, Telma Saraiva já foi tema de exposição sob curadoria de Bidu Cassundé no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, como também na Pinacoteca de São Paulo e no Sesc SP.